sexta-feira, 25 de setembro de 2009

Ontem é o novo hoje.

Eram cd's dos Rolling Stones jogados em uma caixa. Acho que fazia, no mínimo, uns dois anos que ela não ouvia uma música deles, sequer. Os cds estavam jogados em um canto, no quarto. Um canto onde ela colocava as coisas que não usava. Um canto que ela sabia que existia, mas nem parava para notá-lo. Nesse canto, havia livros, fotografias, lenços, outros cds do Rolling Stones, cds de outras bandas, cartas e alguns poemas. Coisas que um dia foram importantes mas, depois de um tempo, passaram a ser insignificantes. Havia um pedacinho dela nessas coisas. Havia lembranças de várias pessoas em cada coisa. Não era a vida dela que estava ali, mas era aquilo que um dia fez parte da sua vida.
Não havia mais importância nessas coisas. Mas ela sentiu saudade dos solos de guitarra que haviam naquelas músicas, e decidiu ouví-los. Ao achar os cds e recordar antigas sensações, automaticamente achou os poemas e os livros que estavam guardados junto com aquelas músicas. Foi quando ela percebeu que ao lembrar de um momento importante na vida, ela lembrava de outros.
Foram cinco minutos de recordações que mais pareciam horas. Eram coisas aos olhos dos outros, mas era vida aos olhos dela. Os Rolling Stones foi a primeira banda que ela ouviu e gostou. Marcou a vida dela em diversos momentos. As músicas que tocavam nos dias chuvosos e nublados, a música que ela ouvia quando saia para caminhar, a trilha sonora quando estava triste ou quando estava animada. Tudo ali, hoje, aparentemente, tão sem importância. Os Stones foram substituídos na vida dela por outras músicas. As canções tristes do Radiohead, o bom e velho Rock N'Roll do Motörhead, a música simples do Ramones e até a voz tão marcante do Chico Buarque - seja lá o que fosse, em um determinado momento da vida dela, foi importante.
As fotos e os poemas, antes com tanto sentimento, agora eram esquecidos. Acho que com todo mundo é assim. Coisas só servem para recordar depois. Saudade pura. Analisou tudo com calma, durante aqueles minutos. "Evoluí. Mas era tão bom aquele tempo..." - pensou.
Desperdiçou exatos cinco minutos da vida dela pensando na própria vida. Recordou não só momentos, como um sentiu um pouco da sensação que tinha naqueles dias chuvosos ao som da banda que ela mais gostava. Nesse momento, a vida que já não era presente, era passado. Pensou nas coisas boas, nas ruins, nas dificuldades e alegrias. Pensou no quanto ela mudou. Mudou de aparência; mudou os pensamentos; mudou de vida. Mas ia fazer o que? Juntou todas as lembranças e guardou no canto. Aquele mesmo canto que ela conhece, mas que nunca repara - um canto que era como a vida dela: ela conhecia, mas nem lembrava daquilo que passou. Deu adeus para a velha vida, e oi para o futuro. Ela sabe que, em algum ano dos próximos que virão, o hoje se tornará um ontem e que tudo importante no agora, será apenas recordação.
- Porque hoje, justo hoje, me peguei ouvindo Oasis e pensando no meu velho mundo;

sábado, 19 de setembro de 2009

Entre aspas. *

" Eu sempre fui uma crítica amarga sobre os sentimentos. Passei longos anos da minha vida escrevendo sobre a forma mais áspera dos sentimentos. Acho que trocava as palavras belas por palavras mais cruas. E me sentia bem assim, criticando as formas mais estúpidas do sentir. Críticas me inspiravam. Mas isso foi antes. Eu evito falar do passado, justamente por saber que eu mudo de ideia muito rápido. Mas, no momento, as críticas que encontrava nos jornais foram substituidas por poemas que encontro em livros. Passei a acariciar as folhas dos livros, sentindo. Passei a analisar sem precisar julgar ou criticar. Hoje, tenho tanto a dizer, usando as metáforas que significam algo para mim. Troquei as frases feias por aquelas que demonstram algum sentido. Troquei a crítica que fazia sobre o sentimento pelo próprio sentimento.
Aí, agora, tenho um legado de palavras bonitas. Acho que retornei ao ponto de partida - voltei a ser íntimas das palavras; tais palavras que me abandonaram e deixaram julgamentos em seu lugar.
Não tenho mais análises duras sobre a realidade. Tenho textos e poemas exibindo uma ilusão sobre o que é belo. Não tenho mais críticas, tenho metáforas, hipérboles e eufemismos. Abandonei tudo o que me restou. Desapeguei-me das coisas que me faziam mal e deixei os sentimentos e suas palavras para trás.
Mudei até de gostos. Me aceitei com a moldura e a pintura que tenho. Me aceitei como sou. Abandonei o mundo e me apeguei às canções e aos sentimentos que antes criticava. Passei a ver o mundo com outros olhos. Olhos mais doces, sem os julgamentos e preconceitos de antes. Me sinto mais leve assim. Me sinto feliz, como há muito tempo não me sentia.
Deve ser por isso que não atualizo muito o blog. Deve ser por medo de expor o que eu antes criticava. Se antes eu tinha as respostas, escolhi as perguntas. E, para minha surpresa, estou feliz com o que isso me causou.
É como se eu tivesse vivido a vida inteira na sombra e, em um belo dia, encontrei o sol. "

*um texto que não tem significado.

sábado, 5 de setembro de 2009

O homem dos olhos de raio-x.

" Existia um homem que tinha um poder. Ele demonstrava uma segurança no seu caminhar, mas que sumia quando alguém fazia contato visual com ele. Era só olhar para os seus olhos que notava-se que ele não era alguém muito confiante, mas ele era diferente. Era um daqueles homens bonitos, que podem ter a mulher que quiserem. Tinha um sorriso aparentemente esnobe, mas verdadeiro - não era daqueles que sorriam gratuitamente. Era alto, alto o suficiente para fazer alguém perder as palavras perto dele. O cabelo era loiro, e enfeitava seu rosto, assim como sua barba. Os olhos eram azuis, penetrantes. Era um homem comum. Ou pelo menos parecia. Aqueles olhos azuis e penetrantes, que demonstravam a insegurança que ele tinha, eram olhos diferentes dos demais. Aquele homem não era um homem qualquer. Ele tinha um poder. Ele podia ver coisas que ninguém podia. Aqueles olhos penetrantes e inseguros eram olhos de raio-x.
De longe, ele só chamava a atenção pela sua beleza. Uma beleza desconcertante, mas que também era comum. Mas ele, ah, não era nada cliché. Ele sabia o que as outras pessoas pensavam e imaginavam, sem precisar conversar com essas pessoas. Olhava as pessoas de uma maneira que só ele sabia olhar - porque os olhos dele eram especiais. Ele não via o exterior, ele via a alma das pessoas. Conversava com as pessoas sem precisar trocar palavras. E até mesmo aqueles que não sabiam do poder desse homem, sabiam que ele tinha algo diferente no olhar. O olhar dele transmitia uma mensagem de compreensão. Ele lia os desejos dos outros. Ele sabia o que os outros queriam ouvir. Ele entendia os outros. E ele sabia disso.
Durante algum tempo, eu o encontrava na rua. Eu o conhecia devido a sua beleza, que chamava até a minha atenção, mas nunca o notei, justamente por julgá-lo comum. Até que eu vi os olhos dele. Eu senti a diferença. Mas não sabia explicar que diferença era essa. Por alguns segundos, quando os meus olhos encontraram os dele, eu senti que era como se ele tivesse lido minha mente. Senti como se tivéssemos conversado sem nem nos conhecermos. E ele sabia o que eu pensava, assim como sabia o que os outros todos pensavam.
Os olhos de raio-x captavam os sentimentos alheios. Era como se, no mundo todo, ele era a única pessoa que pudesse saber o que há dentro das pessoas, sem precisar querer saber disso. Ele somente olhava. Observava as pessoas e, automaticamente, as conhecia. Mas não gostava disso. As vezes, nem entendia porque ele era assim. Ele queria ser como os outros. E ler as paranóias alheias era algo chato, embora fosse útil. Ele não queria conhecer os segredos das pessoas. Só queria ser normal - comum, como ele, de longe, aparentava ser.
Esse homem não gostava de conhecer inteiramente as pessoas, porque sabendo como elas eram, ele não se encantava. A visão raio-x impossibilitava o encanto do desconhecido. Não confiava em praticamente ninguém, pois sabia quem era e quem não era digno de confiança. Não se encantava com a beleza exterior das mulheres, pois via a interior. Não tinha muitos amigos, pois o seu olhar, embora inseguro, era intimidante, e a maioria das pessoas tem medo de ter seus segredos revelados. Ele não tinha como se surpreender, pois conhecia até os segredos mais íntimos das pessoas. E viveu assim, a vida inteira, sabendo como agradar, sabendo o que os outros queriam - embora não fosse isso o que desejava.
A vontade de ser comum passou a ser a realidade. Com o tempo, aqueles olhos penetrantes perderam seu poder. Um dia, ele acordou como ele queria ser. A visão raio-x se foi, mas seu olhar permaneceu penetrante. Passou assim a não agradar ninguém e a viver uma vida comum, errando, se surpreendendo, descobrindo. Sem o seu poder, passou a desvendar os segredos das pessoas, com o tempo, sem conhecê-los antes. Não via mais a beleza interior, ele precisava descobrir essa beleza. Assim, todos os que o olhavam nos olhos, já não sentiam o que antes era inexplicável. Ele não conhecia mais ninguém, não conversava com ninguém.
A vida foi ficando difícil e comum. Agora, ele precisava arriscar, para depois saber se obteria o sucesso ou o fracasso nos seus relacionamentos. As dificuldades foram aparecendo. Antes, ele não precisava se esforçar para agradar, muito menos se arriscar para conhecer as pessoas - mas não gostava de conviver com isso, pois achava que assim era a maneira complicada de se viver. Ele queria as emoções que as pessoas comuns têm. Ele acreditava que, sendo comum, as coisas seriam mais fáceis, pois estaria vivendo como todos os outros vivem. Foi quando ele viu que o que todos desejam é ter o fácil. O que todos desejam é ter suas mentes compreendidas sem precisar arriscar a se entregar. O que todos queriam eram ser interpretados sem precisar expor a sua intimidade. Os olhos de raio-x que ele tinha, encantavam as pessoas porque ele as entendia. Agora, sem a visão raio-x, ele não as conquistava antes de conhecê-las. Foi só aí que entendeu que a maneira que vivia era, na verdade, a maneira mais simples. Ele desejou ter o que ele já tinha: o fácil. Agora, ele vivia como todo mundo, sem saber o que esperar dos outros. Vivendo a maneira difícil de se viver. A única coisa que ele sabe agora é que se deve pensar bem antes de se desejar algo, pois, muitas vezes, o que parece ser fácil, não é. "

Texto em homenagem aos olhos azuis mais marcantes que eu já vi.

sexta-feira, 14 de agosto de 2009

Bicho-preguiça.

Esse é um post para o lado biólogo que existe em mim. (afinal, estudo biologia)

Não sei o motivo, mas é meu animal preferido. Pode ser identificação ou apenas admiração.
Não é um animal bonito. Mas tem sua beleza. É lento, observador, dócil. Passa a maior parte do seu tempo nos galhos das árvores, indiferente a tudo o que acontece ao seu redor. Sem falar na expressão do animal, que parece que está sempre sorrindo.