"O mundo se constrói sob meus olhos num eterno presente. Habituo-me tão depressa às suas faces que ele não me parece mudar." (Simone de Beauvoir)
Talvez alguns pensadores possam dizer que todo dia é um novo recomeço. Mas será que isto é mesmo verdade? Ou nos é passada essa ideia para, que assim, não pareça que estamos presos em uma existência pacata, onde nosso objetivo é só produzir e contribuir para a sociedade?
Durante muito tempo, eu acreditei que eu só poderia recomeçar se isto procedesse de algo grandioso: deixar um emprego, um relacionamento, uma casa, um país... tudo que me pertencia vagamente (ou parecia pertencer) teria de ser deixado para trás, para que eu pudesse, enfim, substituir com uma nova vida.
Porém, a vida começou a me parecer um apanhado de cicatrizes. Todas as minhas experiências deixaram marcas e, sem que eu percebesse, eu me transformava todo dia. Todas as lágrimas, risadas, reflexões e emoções me montavam e desmotavam - todos os dias. Quem eu sou hoje já não é completamente igual ao eu de ontem.
O progresso que fiz nem sempre é visível. E a percepção de tempo aplicável a essas mudanças talvez não seja aquele do relógio. Talvez o ontem e o hoje se fundem no mesmo, porque eu ainda sou a mesma. Talvez o amanhã só apareça quando eu mudar algo em mim. Enquanto eu carregar as mesmas particularidades do passado, o amanhã não existe.
Tantas culpas eu carreguei por achar que eu não tinha feito nenhum progresso, quando, na verdade, muitas ideias já tinham se transmutado dentro de mim, minhas emoções já tinham virado memórias e meus sentimentos tinham se disperso ao vento ou se transformado em outros.
O recomeço é apenas um breve, e talvez necessário, suspiro em meio a um caos definitivo. É poder resignificar a vida. É poder olhar a vida com carinho, quando tudo parece perdido.
"A perpétua juventude do mundo me deixa ser ar. Coisas que eu amei desapareceram. Muitas outras me foram dadas." (Simone de Beauvoir)